15 de setembro de 2015

Bárbara: sem emoções V

Capítulo 5: Gêmeas?

- Conhece a nossa colega Clarice? - perguntou Felipe.
- Como assim? - respondi confuso.
- Olha!
A foto de uma morena com as mesmas descrições de Bárbara, mas o nome não era o dela.
- Bárbara? - perguntei, meio perdido.
- É, e sabe o que é isso?
- Uma foto?
- Nossa! Precisou se formar no Ensino Médio para descobrir isso?
- Explica, Felipe!
- Cara, isso é uma rede social para quem quer transar. Ela tem namorado, tem filho e quer transar com outros caras?
- Não significa isso, nem todas as pessoas são assim como você - argumentei e vi Felipe me olhar com a cara de quem estava realmente confuso.
- Nem todos são como eu, mas porquê ela teria isso se não fosse para transar? Isso é Tinder. É para transar. E outra, se não tivesse segundas intenções, por quê teria outro nome?
- Ela pode ter um irmã gêmea e... - tentei explicar, mas não sabia o que falar.
- Uma irmã gêmea tão idêntica que até troca com ela às vezes pra vim pra aula.
- Vai saber...
- Cara, ela é garota de programa e Clarice é o nome que ela usa na noite. Sou capaz de apostar que se eu oferecer 50 reais ela vai me pedir o lugar e a hora.
- É muita criatividade, Felipe. Mas eu duvido disso.
- A gente não tem como descobrir isso a não ser que tu fale com ela.
- Eu não vou falar.
- Tu vai falar com ela!
- Não. E não se fala mais dessa possibilidade.
- Ok - respondeu Felipe, assustado.
Sem me despedir de Felipe, virei as costas e fui para casa. Assim que cheguei, o telefone tocou.
- Fala Felipe!
- Já foi pra casa, cara?
- Sim. Precisou se formar no Ensino Médio para descobrir isso? - respondi ironicamente.
- É sério, cara. São 9 horas. O professor pediu onde tu foi parar, cara. Tem trabalho para fazer e entregar até o final da aula.
- Diz que eu faço semana que vem.
- Eu disse, cara. Ele me mandou comer um pastel.
- Pastel?
- É. Ele me ignorou. Não quis nem saber o motivo de tu ter ido embora.
- Eu pago o pastel.
- É sério. Vai ficar sem nota. A Bárbara é mais importante que a tua faculdade, cara? Vai deixar ela controlar a tua vida mesmo sem que ela tenha a noção que tá fazendo isso? - Felipe questionou.
Ele realmente me deixou pensando naquilo. Eu estava me rendendo à ela por toda essa curiosidade. Bárbara não é sequer um pouco importante para mim e eu, mesmo assim, estou deixando ela comandar a minha vida como se eu fosse um cavalo encilhado e ela estivesse montada em cima de mim, puxando as rédias para direita e para a esquerda, me deixando totalmente sem vida própria.
- Você está certo - eu confessei para Felipe.
- Então…?
- Pede se eu posso mandar por e-mail. Diz que eu passei mal no intervalo.
Depois do meu pedido a linha ficou praticamente muda e eu ouvia apenas conversas paralelas bem longe, até que Felipe respondeu.
- Ele disse que tu tem até às 23 horas, cara.
- Vou postar, valeu. Obrigado
- Va…
Desliguei antes que Felipe pudesse terminar de responder. Terminei o trabalho em 15 minutos e mandei para o professor. Liguei a televisão e abri o Netflix para continuar olhando Hannibal. Apareceu a propaganda de outras duas séries novas, mas nenhuma delas me interessou.
Às 2 horas da manhã minha mãe acordou, puxou a coberta e me mandou dormir.
- Isso é hora de estar olhando essas besteiras? - ela perguntou com uma voz de sono misturada com um grito de gol, quase acordando todos os vizinhos. E, sim, minha mãe usa a palavra “besteiras” com a mesma frequência que alguém de 20 anos. Normalmente usa “porcarias”, “coisas” e, às vezes, fala “bagulho”.
- Boa noite, mãe! - eu disse, com sono.


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Acordei cedo e às 6 horas da manhã eu estava na frente da casa de Natascha, e tive que me vingar dela.
- Oi - eu disse envergonhado. - A Natascha está acordada?
- Vou chamá-la - respondeu-me a mãe dela que, mesmo com o inconveniente do horário, foi muito educada.
- Você viu que horas são? - me perguntou Natascha ao sair pela porta de casa com cara de sono e com os cabelos escuros estremamento bagunçados.
- Vai fazer o que hoje? Olhar a nova temporada de “America’s next top models”?
- Acabou ontem - ela me falou entediada.
- Então troca de roupa e vamos embora.
Ela não fez questão de me questionar e depois de 30 minutos saiu de casa igual à uma modelo americana, só faltando o salto alto e o vestido vermelho.
- Parabéns - falei surpreso.
- Não estou de aniversário hoje! - curta e grossa, como sempre.


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Em 15 minutos caminhando chegamos à mesma padaria da semana anterior e eu larguei na frente para falar. Comentei sobre Bárbara, seu mistérios, o filho, o anel, a faculdade, até a conta no Tinder com outro nome, citei as circunstâncias, enumerei possibilidades e confirmei a impaciência. Exclui a possibilidade de paixão, destaquei a curiosidade pelo desconhecido e silenciei, aguardando o que diria Natascha depois daquela avalanche de informações.
- Se realmente não é paixão, é loucura, o que é quase a mesma coisa - simplificou Natascha.
- Você parece o Felipe falando - respondi surpreso.
- Felipe?
- Meu colega.
- Olha, não sei quem é esse Felipe, mas para ele falar as mesmas coisas que eu, certamente é uma pessoa muito legal.
- Dá para esquecer meu amigo e focar na garota?
- O que precisa que eu te diga.
- O que eu devo fazer?
- Vai falar com ela e resolve essa besteira, esse tal “mistério” que você mesmo inventou.
- Falar com ela? Não sei se é uma boa ideia. Não sei se consigo. Não sei se posso. Não sei se devo. Não sei se quero saber o que realmente se esconde no final dessa trilha de migalhas espalhadas no chão, que levam meu pensamento para um lugar que eu nem imaginei que pudesse existir.
- Escuta o que eu vou te dizer agora. Tu é uma das pessoas mais incríveis e especiais que eu conheço, mas está parecendo um idiota. Não me importo nem um pouco com essa Bárbara, nem com o que ela fez na vida. Para mim é só mais uma lesada, mas eu sei que tu deve, pode, precisa e necessita falar com essa garota para tirar essa loucura da cabeça. Eu nunca vi você assim. Acredito em você, que realmente tenha algo misterioso nessa história toda. Eu não iria atrás para descobrir, ia simplesmente esquecer. Só que isso tá fazendo mal para você, então resolve logo isso e fala com ela.
- Natascha… - falei apenas o nome dela e fiquei sem palavras, como se as letras estivessem embaralhadas na minha mente.
- O que foi?
- Eu vou falar com ela!


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